Álcool ainda é droga mais usada

por Tisa Moraes

Ainda que o crack tenha se embrenhado por entre as plantações de cana-de-açúcar, o álcool continua sendo o recurso mais utilizado pelos bóias-frias para amenizar a dor física provocada pelos movimentos de força e repetição necessários para o corte da planta. M.A.S., 40 anos, passou mais da metade de sua vida dentro dos canaviais e lá aprendeu que o álcool, associado ao consumo de drogas, lhe garantiria um bom salário no fim do mês.

“Eu era uma máquina, uma turbina de avião. E o álcool era o meu combustível. Eu não comia durante o dia, muitas vezes não parava nem para beber água”, diz.

O lavrador conta que chegou a trabalhar por 12 horas seguidas e cortar 28 toneladas de cana em um único dia. “Isso enchia um caminhão de cana. Era uma coisa fora do comum, mas eu conseguia um belo de um pagamento”, conta.

No entanto, os gordos dividendos custavam caro a M.A.S. “Na manhã seguinte, eu acordava arrebentado, então ia esperar o ônibus (rural) na porta de um bar. Ali eu curava minha canseira e já estava preparado para mais um dia de serviço”, recorda-se.

Ao final de 24 anos de serviço na lavoura e de uso contínuo de álcool e drogas, o cortador de cana havia perdido tudo: o dinheiro, a mulher, os dois filhos e a própria casa. “Perdi até minha dignidade, cheguei a dormir na rua. Só me restou mesmo a vida”, conta, já com a voz vacilante.

Atualmente afastado do serviço pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), M.A.S. está em recuperação na Casa Dia, em Jaú. Lá, ele avalia que a jornada para reconquistar sua independência ainda é longa. “Eu ainda estou engatinhando, tenho muito que aprender. Sei que a minha destruição é do tamanho do meu braço. Se eu esticar a mão e pegar o copo, posso perder o pouquinho que eu já conquistei desde que decidi me tratar”, afirma.

 

O terapeuta Edson Barboza contribuiu para este
Artigo publicado em 15/06/2008 no Jornal da Cidade de Bauru