Urbano, crack chega aos canaviais

Acessível por causa do preço, substância tem sido usada por cortadores para aumentar a produção e reduzir o cansaço

por Tisa Moraes

Escondida entre os talhões de cana-de-açúcar das plantações da região, uma droga comumente consumida nos grandes centros urbanos avança silenciosamente. Mais barato que a cocaína e mais potente do que a maconha, o crack está se transformando na principal válvula de escape para quem tem de cortar mais de dez toneladas de cana durante dez horas por dia.

Na tentativa de minimizar as sensações de dor e cansaço inevitáveis na lida com o podão (facão), bóias-frias historicamente apelaram ao uso de substâncias entorpecentes, como o álcool. Ainda hoje, a aguardente é companhia constante dos lavradores, mas o espaço que o crack vem ocupando nos canaviais nos últimos anos é espantoso, segundo a avaliação de especialistas.

“Há dez anos, não se tinha conhecimento da presença de crack dentro dos canaviais. Hoje, de cada dez trabalhadores rurais viciados, nove usam a droga. É o que predomina nas lavouras. A dependência que ele causa é impressionante”, analisa o psicoterapeuta Edson Aparecido Barboza, que há dez anos presta serviços na Casa Dia de Jaú, voltada ao atendimento de dependentes químicos.

Ao longo do último ano, a entidade recebeu 15 cortadores de cana-de-açúcar vindos de cidades da região para tratar da dependência desta substância. O último deles, C.R.H., 23 anos, está internado porque, em apenas quatro meses no campo, em Barra Bonita, perdeu toda a capacidade de trabalho pelo uso do crack.

“Comecei a usar com os colegas de serviço e, em pouco tempo, estava gastando todo o meu pagamento para poder fumar. Comprava todos os dias. Se não tinha dinheiro, roubava do meu pai. Era difícil controlar a vontade”, revela ele, que pagava R$ 10,00 por cada pedra do alucinógeno.

C.R.H. conta que, assim como ele, outros tantos lavradores ainda vivem esta mesma realidade. “Eles usam a droga, conseguem cortar bem mais cana e não sentem tanto o cansaço. A gente usa para agüentar o serviço pesado e acaba ficando dependente”, afirma, ressaltando que um primo seu também foi afastado recentemente do trabalho em virtude do mesmo vício.

Euforia

A euforia provocada pelo entorpecente, no entanto, dura muito pouco para o bóia-fria. Como aconteceu com C.R.H., em quatro meses de uso contínuo o usuário já começa a sentir os efeitos devastadores da droga: cansaço físico, aumento da freqüência cardíaca, insônia e crises de abstinência. “Em pouco tempo, percebi que o crack começou a atrapalhar meu rendimento no corte. Eu ficava pensando mais na droga do que no trabalho”, conta. No primeiro mês como bóia-fria, C.R.H. conseguiu cortar cana suficiente para ganhar R$ 700,00. Pouco antes de abandonar o serviço, recebeu apenas R$ 470,00, dinheiro integralmente destinado ao consumo da droga.

Pouco antes de procurar por tratamento, além de já não apresentar o mesmo desempenho com o manuseio do podão, C.R.H. também começou a faltar ao trabalho. “Não sentia fome, passava noites sem dormir. Como estava numa situação em que não conseguia fazer mais nada, resolvi procurar ajuda”, diz.

Na Casa Dia de Jaú, onde ele permanece internado, todos os meses são acolhidos pelo menos 20 usuários de droga, entre eles cortadores de cana-de-açúcar de cidades vizinhas, como Mineiros do Tietê, Dois Córregos e Barra Bonita, segundo conta o coordenador Edson Furini. “Estes são apenas os que foram encaminhados pela assistência social das usinas ou pelas próprias famílias. Mas os que continuam na lavoura e permanecem sem tratamento, não há como contabilizar.”

Já na Associação Beneficente Vôo Livre, em Dois Córregos, foram atendidos 12 casos no último ano. Segundo o presidente da entidade, Pedro Henrique Brandão de Lima, o usuário só aceita o tratamento quando o estágio de dependência está avançado. “Nesse ponto, ele já perdeu o emprego, a família, a casa e já está até começando a roubar para poder sustentar o vício”, destaca.

Questionado pela reportagem sobre a existência de políticas de recuperação de trabalhadores adictos, o grupo que comanda três das maiores usinas de cana-de-açúcar da região preferiu não se manifestar. A União da Agroindústria Canavieira de São Paulo (Unica) seguiu a mesma conduta e optou pelo silêncio, o que revela o quão espinhoso ainda é o tema para os usineiros da região.

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Desmaios

Apesar de as mortes no campo terem diminuído nos últimos anos, principalmente pela intensificação das fiscalizações por parte do Ministério Público do Trabalho (MPT), os desmaios de cortadores durante o trabalho ainda são freqüentes. Causada pelo calor excessivo, ao trabalho forçado e à hidratação insuficiente, a perda de consciência no campo expõe a realidade degradante a que os lavradores estão submetidos.

“E, a partir de outubro, o perigo se acentua”, alerta o procurador do Trabalho Marcus Vinícius Gonçalves, do Ofício de Bauru da Procuradoria Regional do Trabalho da 15.ª Região. “No final do ano passado, em uma usina na região de Ourinhos, 30 trabalhadores desmaiaram em um único dia. Todos apresentavam os mesmos sintomas de tontura e vômito.”

Na ocasião, a frente de trabalho foi interditada pelo MPT em função das condições climáticas adversas. Conforme monitoramento do órgão, desde 2004, ocorreram 20 mortes por exaustão nos canaviais da região, todas elas atribuídas ao excesso de trabalho.

 

O terapeuta Edson Barboza contribuiu para este
Artigo publicado em 15/06/2008 no Jornal da Cidade de Bauru